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Adeus

E agora quem me ouve, quem me vê, quem me agarra, estas mãos sozinhas, desamparas, inúteis, quem me define? É assim que me respondes, que faço com o silêncio, leio um voltojá, oiço um esperaumbocado ou talvez sinta um desculpa-me e corra atrás das migalhas que deixámos cair entre as lembranças que me escapam…

Talvez me deite aqui contigo, partilha a almofada de mármore, finjo a terra molhada lágrimas que deixas submergir, porquemé,umaesmolaparaquemcáfica, pó nos músculos, comidaparaaalmasenhor, em cada tremor meu voa um bocado mais de ti.

Meu Deus para onde vamos quando houver mais mortos que Terra, que farei quando a calçada forem parentes, amigos e conhecidos que nunca falei, quando à minha volta não restar senão momentos emoldurados, eu a ideia abstracta de um sentimento que se tornou gesto numa palavra. 

Estas plantas que crescem à volta do teu tugúrio, deixa-me fazer-te com elas, numa margarida oiço um amo-temuito, olhar de túpilas, a tua pele nas pétalas brancas, nos espinhos o teu abraço, na vida líquida um beijo, a terra a engolir-me, meu corpo uma semente e eu em casa, sufocado em raízes de pensamentos. 

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Resposta

Breves lapsos de consciência e sonho entrelaçados, às vezes quase que, acho que são 3 da madrugada e um impulso teu, memórias de um coto, fez-me rodopiar nos lençóis e encontrar a almofada aos pés, quefazesaí?, no tecto a mesma face inescrutável, não reparo que os pés, e o presságio na janela, dizquemeouves, complicas sempre tudo, uma lembrança triste, um cheiro que guardo sem lhe tocar, mas acho que são 4 da tarde e lá fora o mundo, engrenagem sem dentes, chamas-me, vembrincarantesquetudo, e para quê se os fios emaranhados, eu a debater-me com a rotina e tu a quereres dançar, render-me ao acaso, à pequena chance de me rir no final, ou apenas sorrir, só isso, nãosoueuéstu, mas acho que são 10 da manhã e falta o gosto a rápido no café, o beijo assoprado, acho que varri umas pegadas para debaixo do tapete, talvez as ponha no céu e ganhes assim um novo chão, tambémteamo, entre as nossas mãos um espelho e a breve esperança de cair-mos um no outro, e acho que ainda não são horas de te esquecer, o tempo que se arranje sozinho. 

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Café

Não a conheço, claro. Ou melhor, conheço-a à minha maneira. Sou eu que lhe dou pensamentos, que lhe coloco motivos nas acções, o seu propósito aqui e agora é a razão que vou tecendo à medida que a desenho. Não é a relação típica, mas não conheço alguma que o seja. Às vezes penso dirigir-lhe um oláquemés?, ver no seu olhar nascer um indignado maseuconheçoodealgumlado?! e sentir que é assim que o mundo tropeça em si próprio, pondo o porquê depois da razão.

Senta-se na mesa do meu lado direito, um tímido relógio de braços vermelhos abraça o pulso esquerdo e diz-lhe que chegou 10 minutos após o combinado, hora certa. O polegar e o indicador beijam-se no canto direito da sua boca, pedido mudo, nasce um café (ou uma bica, não lhe vi a nata). Traça um fino risco branco a partir da mala que se torna cigarro.

Trouxe óculos escuros sem sol a acompanhar. Esse véu esconde, talvez, traços de um choro acalentado, daqueles que se escreve invisível numa almofada, afogado em soluços breves. Ainda não sei que vestido pôr neste pranto, deixo essa porta aberta e ele escapula-se, languidamente desliza nu pelo café, o local não a desculpa, essa espera que a cumprem. Tem um desejo escondido, uma promessa de contacto julgo.

Temlume?, pergunta. Pergunta-me. A quarta parede atirada assim aos pardais. Cabrões, aproveitem-na. O seu pedido requer o sacrifico de um fósforo, minha mão um corta vento até aos seus lábios. Quando atraca, o fósforo torna-se mar, a mão dela um reflexo da minha e criamos um mundo com uma luz no seu interior. Ela olha para dentro do mundo, por instantes brilho de criança, faz do cigarro palhinha e suga a luz para si. Do mundo apenas resta fumo, da luz um rasto como se estrela cadente.

Então? Desculpe? Tratameportu. Desculpamasnãopercebi. Quefaçoaqui? Por momentos pinto silêncios nas íris castanhas. Decertoconfundeme. Destinosnãoseconfundem. Mais silêncio. Quando é que ela bebeu o café? Aindanãoseiparaondeir, levanta-se, masestouatrasada. E abandona-me.

Tags: Café
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Diálogo

Falemos daquilo que não entendes, falemos do que incomoda o teu pensamento oh beleza, oh encanto, oh maravilha descoberta, falemos até que o mundo fique impávido perante o assobio de uma ideia que se desmorona, não tão alto que ofusque a tua voz de sereia.

Falemos das tuas preocupações, falemos do que te atormenta oh querida, oh utopia, oh mestre revelado, falemos até que a terra desista de se conter e cave mandíbulas no seu rosto, cairemos juntos no teu abraço confortável de sonho bonito.

Falemos daquilo que nunca soube que precisava, falemos da forma oblíqua como nos vês oh arquitecto, oh pura, oh materna esperança, falemos até que as tuas palavras nos cubram os corpos com a tua génese original e intocável, seremos o reflexo que a tua fonte brotou e ninguém recebeu.

Falemos ouvindo-te, só assim é que há diálogo. E no final da tua revelação, no silêncio das húmidas grutas de estupefacção, naquele inócuo embaraço antes do ensaiado acto de louvação, gritarei o meu breve monólogo “Oh linda, vai à merda!”.

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Café

Café é o sítio, a bebida, a desculpa e a testemunha. É provavelmente a minha palavra favorita, local e razão ficam encapsulados numa breve sentença, vouaocafé., ou assim seria, não fosse aquele adeus que deslizo pela fresta antes de fechar a porta na esperança de ouvir na tua despedida um silvo de nãovás. Acho que nunca saberei se te abafo com os meus passos ou se julgo ouvir no silêncio o eco do meu desejo.

O estabelecimento pulsa, empregados correm nas veis estreitas entre mesas, estabelecem o ritmo expelindo do manípulo coágulos de pó negro, as bandejas são bailarinas nos seus braços (rodam, saltam, outras abraçam-nos, cansadas), todos os clientes são amigos por conhecer, cada pedido um acto de criação: háumpãozinhotorrado! háumgalãoeumanata! háumaminicomumamista! háumabica!.

Tenho ali a minha cadeira, o meu pequeno canto, a circunferência de cor mármore onde me enraízo, as pernas parecem sulcar o chão, calco a rectidão do encosto às minhas costas, sou um posto de observação, tal como o café sou a razão e o local, um farol. E um bem conhecido, não preciso de ligar a voz para ser servido, pequena vantagem.

Os gestos repetem-se num compasso lento: a mortalha um lençol, o tabaco deita-se, junto o filtro a servir de almofada, embalo tudo com ternura terminando com duas leves pancadas aos pés da cama. O sono ardente chega com o café e sonha-se um rio cinzento flutuante. Os cigarros morrem sempre a dormir.

Sorvo o líquido negro sem qualquer artífice (até cheirinhos dispenso), não gosto de espoliar o seu sabor acre que ressoa em mim embora afogue a boca com fumo. E, como sempre, no derradeiro batuque no cinzeiro, ela entra.

Tags: café